Opinião

14/11/2021

Procuradora destaca ligação de Marília Mendonça e a luta feminista

Samia Saad Gallotti Bonavides*

 

Morreu a Marília Mendonça. Mas quem era Marília Mendonça e o que ela tem a ver com o feminismo? Não foi uma, nem foram duas mulheres, de diferentes gerações, que tiveram a mesma impressão de estarem um pouco por fora dos acontecimentos do mundo musical, quando souberam da morte de uma “cantora e compositora famosa e talentosa”, ocorrida num terrível acidente aéreo, em Minas Gerais, em 05 de novembro deste ano de 2021.

Mas, aquelas que foram surpreendidas com o nome e a imagem desta goiana - lembrada eventualmente, embora não bem percebida e nem reconhecida -, não estavam apenas “por fora”  dos assuntos musicais do momento. A probabilidade é que também houvesse desconhecimento a respeito do que ela provocava num público específico, composto majoritariamente de uma multidão de meninas e mulheres, as quais eram influenciadas e mobilizadas, sendo estimulado o empoderamento sobre temas que auxiliam a emancipação feminina. Esta convergência, vista por muitos como uma revolução e um pioneirismo constatados no discurso musical da cantora e compositora Marília Mendonça, veiculava formas e possibilidades de saída de algumas “armadilhas machistas” engendradas pela cultura patriarcal.

Suas letras de música tinham mensagens diretas e empáticas sobre como uma mulher pode “dar a volta por cima”. Sendo realistas, temos que reconhecer que, de forma global e também localmente, as sociedades não se importam com o sofrimento das mulheres, que não é muito valorizado. No Brasil, seu enfrentamento é tímido, pois ele parece ser quase desacreditado, visto que a violência doméstica e o feminicídio, não fosse o desdém estatal, deveriam ser objeto de intervenções à altura deste sério (e desde sempre urgente) problema social, cuja demanda é por políticas públicas integradas e interseccionais, envolvendo diferentes setores governamentais, com investimento público e capital humano compatíveis à relevância, sendo que a sociedade civil deveria ter a mesma preocupação, para a execução de uma partitura mais melodiosa e harmônica.

Ao contrário disso, o que se articula como regra é a resposta punitiva, considerada por muitos como boa e adequada, embora socialmente ineficaz, sendo pouquissimamente útil, se desacompanhada de instrumentos com potencial transformador dos relacionamentos sociais, utilizando uma pedagogia da libertação da mulher que a emancipe deste figurino patriarcal e machista, provocador de desequilíbrio democrático e malefício comunitário.

Nesse terreno das mensagens e da subjetividade construída pela ideologia de gênero, retratando a mulher como aquela a quem está afetado o espaço doméstico, na condição de “rainha do lar”, cujo reinado tem que ser desempenhado com uma gestão eficiente e indelegável, sob pena de imputação de improbidade familiar, é importante a desconstrução visando desconstituir a subjetividade imposta por este modelo.

E isso porque há aí um erro de perspectiva. O que é preciso ser dito é que, se a insistência for no sentido de persistir na imposição de subjetividades, que estas sejam capazes de produzir consciências coletivas e participativas das responsabilidades sobre a condução e perpetuação da vida sobre a terra. Porque tudo que se relaciona à família, consideradas todas as suas formatações, diz respeito à maneira de organizar o nosso cotidiano, como sujeitos humanos, dotados de razão e  sentimentos, que pragmaticamente vivem e convivem experimentando relações e condições para a sustentação da vida no planeta, e, por óbvio, deveriam estar incumbidas a todos, sem apontar quem é o “mais responsável pelo que”.

Há necessidade de mudar a concepção existente, já naturalizada, ainda que se a considere não explícita, de que quando a mulher reivindica este “lugar ao sol”, diferente do “reduto reservado (e não ensolarado) do lar”, para também vir a ocupar o “reinado da política”, “o do ministério público ou o da magistratura”- ou ainda numa organização privada -, se entenda como invasão a uma gleba já colonizada por outras “soberanias”, e que estas regras são imutáveis. Isso é considerar, por extremo equívoco interpretativo, que se trata de  infringência de cânones em território cultural e politicamente já demarcado, quando, na verdade, historicamente falando, há um passado de inegável usurpação de poder para conduzir a organização da vida pública, uma vez que não há justificativa plausível sobre não coparticiparem as mulheres.

Para que aconteça a mudança que propicie tais condições, de uma forma plena e em situação materialmente igualitária, que recomponha a dissonância do peso sobre a existência feminina, faz-se necessário alterar a episteme, provocando, na linha do pensamento de Michel Foucault, uma drástica ruptura epistemológica, que seja capaz de abolir a totalidade dos métodos e pressupostos cognitivos anteriores. E como se faz isso?

Bem, há necessidade de repactuar as regras forjando-se consciências numa outra sintonia, para que haja distanciamento da lente individual para o compromisso comunitário coletivo sobre os cuidados relativos à vida, alterando-se as concepções atuais relativas aos encargos de sua manutenção. Esta tarefa de cuidar é algo que exige dedicação,  estando alguns dos seus aspectos afetados mais diretamente à mãe, como ocorre com a atenção materna nos primeiros anos de vida da criança, e principalmente nos primeiros dois anos, para o aleitamento, ou em decorrência do período da gestação, servindo ambos como exemplos para que esta reflexão possa chegar ao ponto de equilíbrio.

O fato de algumas situações serem uma condição vivenciada obrigatoriamente pela mulher, não significa, em hipótese alguma, que seus encargos tenham que ser suportados unicamente por ela, porque existem maneiras deles serem compartilhados com a respectiva comunidade, por meio da superação da ótica de imputação de responsabilidade individual a ela, quando tem que ser coletiva, porque é uma responsabilidade social, que tem que ser dividida, de modo que algumas tarefas profissionais, por exemplo, não sobrecarreguem quem naquele momento realiza algo que deve ser suportado social e comunitariamente por todos.

A justificativa ou o fundamento é o fato de se tratar de questões relevantes a respeito do nosso estar no mundo e, por isso a importância dos concertos civilizatórios que devem acontecer, para além de apenas naturalizar papéis sociais, que impõem uma tribulação que gera desigualdades de esforços, sobreposições como a dupla jornada ou mesmo impeditivos para alguém se estabelecer fora do ambiente doméstico. Como isso se dá devido ao compromisso exclusivo com  temas que importam a todos, porque implicados na sobrevivência, se não forem corretamente distribuídos, sempre irão redundar em fraturas substanciais na equidade, podendo causar prejuízos, aí se identificando a inconstitucionalidade e também a injustiça.

Marília Mendonça encontrou um canal, uma sintonia, para mostrar como driblar as desilusões amorosas vivenciadas por um público feminino, que ainda tem dificuldade de se impor e de superar as consequências decorrentes dessas subjetividades moldadas num padrão que não se importa muito com a “sofrência” feminina. Até porque, quem compreende o mundo, pela perspectiva machista, como um locus “seguro e privilegiado” para as mulheres, poderia questionar: sofrer por que? sendo a “rainha do lar”, recebendo flores e enfeitando lugares?

A visão correta a esta conjugação de significados e significantes vazios de conteúdo, é muito outra, pois, na verdade escancara a carência de justiça social. Há, isso sim, necessidade de potencializar ações e políticas corretas em relação às questões de gênero, raça e desigualdade social, como temas vinculantes de toda atividade humana tendente a contribuir para o avanço civilizacional. Deve ser ressaltado aqui o fato de que, quando tais circunstâncias confluem no cotidiano da guerra cultural, o resultado é o racismo estrutural, como a face mais cruel do sistema excludente, que atinge não só as mulheres, mas as está atingindo fortemente, e com mais eloquência ainda, as mais vulneráveis (negras e pobres), embora alcance todas.

As posturas que visam demarcar o “reinado do lar”, entregar buquês de flores e criar um papel decorativo para o público feminino, sublimam hábitos arraigados e profundos de um mundo cuidadosamente conformado por arquétipos patriarcais, que se destinam a dominar e colonizar, por isso é que a superação tem que ser uma conquista doutoral da revolução feminista, contribuindo e atuando no sentido de provocar uma profunda mudança de atitudes e de cultura, um diferente estado de coisas que corresponda ao “novo normal”, que não seja obscurantista e nem acolha visões românticas, nada contributivas ao ativismo feminista, que é legítimo.

Não tem mais uma Marília Mendonça para interpretar esse desejo dos âmagos femininos, e nem para levantar seus egos e auxiliar neste caminho de forjar consciências, o que ela fazia poderosamente por meio de um gênero musical e acordes vigorosos e influentes. Continuamos dependendo de nós. Daqueles e daquelas que carecem ser incessantemente sensibilizados e preparados para as fileiras dessa grande temática do século XXI, mas o fazendo de forma compreensível para quem nele vive, neste momento histórico.

Precisamos, então, de muita inovação e criatividade (artística inclusive) para encontrar o tom, escrever as letras, cantar as músicas que nos auxiliem, num coro afinado e seguro, a sair dessa sofrência existencial, bem retratada no passado, por uma grande mulher e feminista do século XX, então atuando num nicho mais acadêmico, que foi Simone de Beauvoir. No seu tempo, ela vivenciou diferentes apelos, com muito menos tecnologia, devendo isso ser lembrado porque temos que estar atentas à utilização dos instrumentos adequados ao nosso contexto histórico.

Isso implica em transitar, arqueologicamente, pelos vários fragmentos de experiências e conhecimentos, visando obter uma unidade reveladora. Podemos ler livros e artigos de todas as épocas (bem como escrevê-los ou reescrevê-los), assistir a peças de teatro e filmes, escutar músicas, participar de lives, tudo visando reunir um conjunto de conhecimentos, que auxilie a descortinar as sutilezas da dominação machista, estas que não são  motivo de orgulho, nem são reproduzidas por muitos homens já bem evoluídos no pensamento e nas ideias, posto compreenderem suas particularidades perversas. Mas, a necessidade que se apresenta é de transformação de práticas, como uma continuidade dessa luta que tanto custou em sacrifícios, quando historicamente se constata o que suportaram as primeiras feministas.

Hoje, o tema do feminismo não é mais invisibilizado e há como falar dele, discutindo-se publicamente nos mais diferentes espaços, por isso é preciso sempre ir além, por meio de ações consistentes, principalmente com muita música, muita arte e muita filosofia, de preferência utilizando as plataformas digitais, como mulheres desta época, “representantes do” e “sintonizadas no” século em que vivemos.  

 

*Procuradora de Justiça, cocoordenadora do Movimento Nacional de Mulheres do Ministério Público

** Esse artigo foi originalmente publicado na edição do dia 14 de novembro de 2021 do blog Gestão, Política & Sociedade do Estadão.

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